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Madrid - 7. – 9. Okt. 1912 - "Gran Teatro" <<<

Lissabon - 19. – 22. Okt. 1912 - "Theatro da Republica"

>>> Wien - 15. – 30. Nov. 1912 - "Ronacher Theater"







A Capital, 2.10.1912:

English

 

 

Max Linder em Lisboa

O principe dos artistas cinematográficos - Do

Conservatorio ao pano branco - O irresistivel

em carne e osso

 

    Nos primeiros tempos da valorização do cinema, não me consta que tivesse morrido de meningite nenhum autor de films comicos. Havia - lembram-se? - uma enorme variedade de fitos hilariantes. Assim tinhamos o sujeito obrigado a casar com uma mulher feia e que fugia a sete pés, derrubando dois policias, uma ama de leite com o seu carrinho, um pintor com a sua escada, uns operarios que caiam do um andaime, uns jogadores de bola, etc. Por fin, o perseguido ou caia á agua ou dentro d'um cesto d'ovos. Na seção seguinte, tinhamos o galã que, tendo-se metido n'uma aventura perigosa do amor, fugia a sete pés, derrubando dois policias, uma ama de leite com o seu carrinho, um pintor com a sua escada, uns operarios que caiam d'um andaime, uns jogadores de bola, etc. Por fim o perseguido ou caia dentro d'agua ou dentro d'um cesto d'ovos. A's vezes, para variar este entrecho um pouco enfadonho, assistiamos ás desventuras d'um cavalheiro que, tendo chegado a casa e tendo encontrado um girafa dentro da mesa de cabeceira, fugia a sete pés, derrubando dois policias, uma ama de leite com o seu carrinho, etc., etc. (Vidé acima).

   Enfin malherbe vint … Ao passo que os grandes actores se mettiam a interpretar films d'arte, paralelamente os fantasistas de café concerto vieram transformar a fita comica. Foi então que surgiu Max Linder com os seus fraks irrepreensivelmente talhados, o seu chapeau alto impecavelmente colocado, os seus coletes ultima marca e o seu extraordinario poder de suggestão comica que lhe deriva da mascara soberba de expressão, dos seus olhos magnificos de malicia e da sua gesticulação elegante e imprevista.

   D'onde vinha esse rapaz alegre e extraordinariamente sympathico que logo conquistou o melhor dos publicos: as mulheres? Não so sabia. Alguns bem informados diziam-no um rapaz de sociadade, filho do grande industrial cinematographico Pathé. Outros recordaram-se de o ter visto interpretar o papel creado por Prince na Miquette et sa mère e contaram-nos que Max Linder sahira do Conservatorio com um primeiro premio de comedia, debutára como galã comic no Ambibu e d'ahi emigrára para os music-halls, fazendo nas revistas papeis burlescos de grande successo.

   Foi ahi que a casa Pathé o descobriu, e seduzida pelas extraordinarias qualidades do artista, o prendeu por um contracto soberbo: dez contos de réis por anno, para exclusivaimente pousar - se se pode applicar tal palavra a tão trefega e desarticulada creatura - deante das suas objectivas.

   Então começou a lucta entre Max Linder e Prince - o nosso conhecido Bigodinho. - Mistinguett e Spinelly, as duas endiabradas actrizes, faziam causa commum com esses «deriches girantes» e o film comico entrou n'um caminho novo. Se o grande comico das Variadades se revela mais consciencioso actor - na acepção artistica do termo - Max Linder vence-o facilmente pela fantasiados enredos que elle proprio cosinha, pela graça natural e sobretudo pela sympathia que inspiră a todos os publicos. Como succede aos grandes actores comicos, quando surgem sobre os tablados, mal no ecran apparece Max Linder, as plateias acolhem-no com gargalhadas. Que irá elle dizer callado, fallando pela cara, pelas pernas, pelos braços, pelos cotovellos, emfim? Não se sabe ainda, mas elle lá está, figurino de jornal de modas, absolutamente á vontado dentro da sua elegancia, a risca do cabello indesmanchavel, o huit-reflets fazendo parte da sua anatomia de acrobata, os punhos collaborando nas farças, o vinco das calças indestructivel e os olhos - aquelles olhos! - dizendo poemas de alegria.

   Entretanto Max affirma-se nos campeonatos um esgrimista notavel, sobe em balăo e em aeroplano, escreve artigos, representa sketchs da sua lavra, faz-se um boxeur emerito, dá exemplo nos rinks de patinagem e não ha sport que para elle tenha segredos. A todos utilisa e seu tempo nos films que compõe e, quando n'elles se cança de ser um gymnasta admiravel, demonstra-se um actor explendido de minuciosidades mimicas como no Sapato apertado ou mesmo um artista sentimental como no Max é pae.

   Max Linder agrada a todos nós, ainda áquelles que, por graves preoccupações de espirito, pouco inclinados se sintam a rir das suas peloticas. Mas onde o seu publico se revela formidavel é entre as mulheres. Desde as damisellas mais galantes da aristocracia até as mais gorduchas creadas de sorvir, a todas agrada aquella mocidade, porque tem o supremo condão para agradar a espiritos femininos: sabe tazer rir.

   Disse um psycologo que o melhor meio de seduzir uma mulher é fazer brotar nos seus labios a rubra flôr do Riso. E os processos de Max Linder, melhor que as subtilezas espirituosas, conseguem soltar, em revoadas crystallinas, as gargalhadas das mulheres. Embora pareça um impossivel, a sua imagem, reproduzida no panno branco dos cinemas, tem inspirado quasi paixŏes. O annuncio da sua vinda a Portugal, que A Capital foi o primeiro jornal a annunciar, fez com que, antes que ella se confirmasse officialmente, alguns bilhetes femininos nos interrogassem anciosamente. Agora não resta duvida. Max Linder - depois de em Barcelona ter causado um successo que motivou intervenção da policia nas ruas e de cavallaria á porta do theatro: successo popular de curiosidade e sympatia, successo artistico pelo imprevisto da apresentação e novidade do programma - estreia em Madrid no sabbado. Tel-o-hemos em Lisboa no dia 19 e o Porto admirará em seguida o creador das melhores comedias cinematographicas. O detalho dos seus espectaculos cabe ao reclamo industrial da tournée; porém, com prazer registamos que com Max Linder veremos Napierkowska, a celebre bailarina da Opera de Paris, interpretando as danças classicas que a tornaram celebre.

   A pezar do seu talento, a sua figura permanecerá apagada ao par da de Max Linder. Sobre elle convergem todas as curiosidades e, ao ter a occasião de o irem apreciar como actor, já muitos perguntam se, falando e representando sobre as taboas de um palco, Max será tão interessante como quando, pela simples eloquencia patusca dos seus gestos, elle faz rir os mais sizudos. Os jornaes hespanhoes assim o affirmam. Será um confronto interessante od das duas artes, que um abysmo profundissimo e inexplicavel separa. O porteiro da geral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Capital, 16.10.1912:

English

 

 

Max Linder chegou…

 

 

Chegou, foi visto e ia sendo esmagado – As-

pectos da chegada – Uma rapida palestra

com o grande comico cinematographico

 

    Quatorze horas e trinta minutos. Defronte da estação do Rocio já ha grupos impacientes. Nos dois pavimentos do edificio, esses grupos a vultam e em volta da bilheteira uma multidão compacta comprime-so na ancia de comprar o bilhete de gare que lhe permitta ver de mais perto o grande actor cinematographico. Os caes da estação onde deve abordar o expresso vão-se coalhando de gente: jornalistas, photographos, artistas dramaticos, muitas senhoras e numerosos populares olham com anciedade o tunel de onde ha de surgir o comboio. O rapido do Norte estabelece uma confusão.

    - "Lá vem elle sr.!", grita uma voz.

    Todos se precipitam para em breve reconhecer o erro. Finalmente, ás quinze horas menos cinco um silvo penetrante annuncía a chegada de Max Linder. Ao passo que uns se precipitam ao encontro da carruagem onde elle surge á portinhola, outros trepam sobre bancos, ou sobre carros de descarga. Uma salva de palmas estruge. Com enorme difficuldade, Max Linder prepara-se a descer. Veste um sobretudo claro cintado e cobre-lhe a cabeça uma boina de viagem. Contempla com olhos curiosos a sensação que produz na multidão e a sua bocca abre-se n'um amavel sorriso. Saúda com a mão e consegue, após graves esforços, pôr pé no asphalto.

    Espera-o Lino Ferreira, em nome das emprezas que contractaram a sua vinda e innumeras pessoas tentam apertar-lhe a mão. Os mais conhecidos photographos tentam baldamente achar o espaço necessario para descarregar sobre elle o fogo das suas objectivas. Insensivelmente, horrivelmente apertado dentro da multidão, defendido por um grupo de pessoas, Max Linder dispõe-se a sahir da gare. Cá fóra, no pavimento publico, uma nuvem compacta o aguarda. Rebôa uma nova salva de palmas e, no trajecto até ao elevador e d'ahi á porta da estação que dá sobre a Rocio, a figura do popularissimo comico sómese. Cá fóra, na rua, todos se acotovellam na esperança de o poder ver. Separado dos seus companheiros de viagem, machucado, a boina carregada sobre os olhos, Max entra finalmente no automovel que larga immediatamente em direcção ao Hotel de Inglaterra.

 

***

    A' porta do Hotel é necessario um esforço herculeo para obstar a que a multidão invada o atrio. Por uma manobra habil, conseguimos ficar sós com o rei do film. Cançado da viagem, aturdido, mal reposto ainda da sua queda de Madrid, senta-se, ao pé de nós, n'uma das cadeiras da entrada e ao ser-lhe recordado o nosso nome, Max Linder muito gentilmente nos aperta a mão. Tranquillisamol-o dizendo-lhe que não lhe vamos fazer as perguntas de todos os entrevistadores. D'antemão sabemos que "está deliciado com a viagem, que a natureza vista atravez das vidraças do comboio é maravilhosa, que o ceu o deslumbrou, que o acolhimento da multidão, que o ia machucando, o deixou encantado e que é com um grande jubilo que elle vem apresentar-se em Portugal". Max sorri.

    Apontamos-lhe a multidão que se atropella na rua, que trepa ao automovel e se pendura nas grades fronteiras para o poder avistar. Ha rostos de garotos de jornaes, estampados na vidraça da porta que ameaça ceder. Um braço agita um bonnet.

    - "Aqui o que é ser popular!"

    - "Sou popular de mais, lastima-se Max Linder. Imagine que em Barcelona fui toureiar. Fiz o diabo. A' sahida, fui sacado em hombros como qualquer grande espada. Pois todos me queriam arrancar os alamares da jaqueta, as borlas do chapeu. Fizeramme oahir dos hombros dos que me transportavam. Rasgaram-me, tiraram-me o collarinho e os sapatos. I'am-me matando…

    - "Ahi tem um film sensacional.

    - "Esse perdi-o, infelizmente.

    N'essa occasião alguem interrompe o nosso colloquio. Houve um equivoco. Max Linder reteve por telegramma aposentos no Avenida Palace. E'forçoso partir para lá e conseguir encontrar M.elle Napierkowska que deve ter ido para o Grande Hotel da Avenida. O difficil porém é sahir. Ao comprehender que Max Linder vae sahir, a multidão precipita-se. Com a maior difficuldade conseguem entrar no automovel, acompanhando e defendendo Max, tres amigos. Vertiginosamente o cárro põe-se em fuga. A multidão corre a esperal-o na rua das Pretas. O chauffeur, porém toma á primeira travessa e passando atravez da populaça que retrocede vem parar ao fundo da escada do Avenida Palace. Para escapar á invasão resta o elevador. Este sobe com o artista e o jornalista delegado da Capital, deixando em baixo alguns curiosos.

 

***

    Passados alguns instantes de conversa, durante os quaes Max Linder voluptuosamente se espreguiça sobre o estofo d'uma das poltronas do salão grande e nos relata episodios da sua viagem alegre de Madrid a Lisboa, uma dôr importuna, que o faz morder o labio, recorda-lhe a sua queda em Madrid, que o fez reduzir a tres os espectaculos que ali tencionava dar. Max informá-se da ouriosidade que provocarão as suas recitas. Indicamos-lhe como seguro prognostico a procura dos bilhetes.

    Finalmente surge no corredor a figura gracil de Melle Natacha Napierkowska. Um amplo casaco de viagem; sobre o cabello d'um louro escuro uma touca graciosa. No braço, uma manta de resguardo e aconchegado ao peito carinhosamente uma bolinha de pellos cinzentos d'onde surge o focinhito afilado d'um cão d'alto preço. Com o empregado do Avenida-Palace, deixamos os dois sympathicos artistas discutir o seu alojamento. Estão anciosos de descançar. Não seria cortez insistirmos com uma presença opportuna. Um ultimo aperto de mão, um encontro marcado para d'aqui a umas horas… Eis as rapidas impressões da chegada a Lisboa da mais prestigiosa figura do cinema, de Max Linder, o amigo e conhecido de todos nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Capital, 18.10.1912:

English

 

 

A RUA

A Baixa em revolução

Ajuntamentos, correrias, policia mobilisade

QUE SERÁ?

Não é nada: é Max Linder fazendo uma “fita ..

 

    A's quinze horas o largo das Duas Egrejas, em frente a rua do Thesouro, está coalhado de gente. Que será? Uma desordem? Em frente ao theatro Republica um enorme ajuntamento. O chafariz carregado de povo. Cinco ou seis guardas são impotentes para reter a onda humana. O Benoliel, o Rato, todos os reporters photographicos agitam os bracos armados dos Kodaks de tiro mais rapido. No meio da rua um homem desgrenhado, roto, sujo, sem um sapato, pede em altos gritos que se afastem, que se desviem. E' Max Linder, que prepara um dos episodios d'um film que se exhibirá amanhã no Republica. O operador da casa Pathé está preparado. Faz-se um ensaio. Entre os figurantes tomam parte jornalistas, artistas dramaticos. O bandarilheiro Manuel dos Santos é o mais influido. Tudo está preparado. Os figurantes gritam «Lá vem elle».

   Agitam os chapeus, os lenços; Max Linder, figurando vir fugido da Baixa, avança como um raio rela rua fóra, tropeça, levanta-se e entra pelo theatro dentro, seguido da multidão que espinoteia. Está terminado um dos quadros.

*

**

   N'um automovel com Lino Ferreira, Luiz Cardoso e André Brun, Max dirige-se á estação do Rocio. No estribo do carro trepam varios photographos, que não querem largar a preza. Os transeuntes param para vêr passar aquelle extranho vehiculo. A tenção primitiva era tomar o film junto dos lagos da praça de D. Pedro, com um mergulho sensacional. O local, porém, não se presta. Preparam-se as coisas para registar a sahida da estação. Já n'este momento centenares de pessoas e milhares de garotos de jornaes, que nascem das pedras do chão, cercam o automovel. Chega um reforço de policia que consegue manter, com esforços inauditos, a multidão e fazel a abrir alas. O operador colloca-se junto da arcada do theatro. Os electricos circulam sem cessar. Quatro ou cinco carroceiros installam-se no meio do percurso do artista e teem que ser retirados à força. Os empregados de Max Linder e a policia supplicam que deixem trabalhar o desgraçado artista. Nada conseguem. Um enterro vem a passar; uma longa fila de trens o acompanha. Max não consegue vêr o apparelho. Ha um mal entendido. Ao partir o artista da porta da estação, o apparelho cinematographico não está em marcha. A multidão não deixa passar Max na sua correria vertiginosa. Um automovel atravessa-se. Impressionam apenas dez metros de film util.

   Para que Max possa voltar para o seu automovel há um apertão horrivel. Quasi o derrubam. Todas as janelas da praça estão apinhadas. As gargalhadas estrugem. Só Max está furioso. Lamenta que Lisboa não esteja, como Paris, saturada de ver executar films em plena rua.

   Em Paris, diz-me elle, faço o que quero. Ninguem repara. A qualquer hora eu faço em pleno boulevard as coisas mais extravagantes e todos me deixam em paz.

*

**

   O automovel sobe a Avenida, seguido de uma fila de taximetros que transportam os mais encarniçados perseguidores. Acompanha-o tambem o sr. capitão Penha Coutinho, que dirige um serviço de policia requisitado. Decide-se tentar fazer algum a coisa no Chiado. Perto da Havaneza desembarcam o operador e Lino Ferreira. O automovel segue e esconde-se com Max na rua Anchieta. Dispõem-se vigias ás esquinas que transmittem o signal e apenas a manivella gira, Max sobe Chiado acima, esfrangalhado e roto. A qui um incidente optimo para o film: um policia desprevenido, vendo chegar aquelle maltrapilho que alguns garotos perseguem com uma vozearia terrivel, tenta deitar-lhe a mão. Max devisa e continúa correndo sobre o apparelho. O policia quasi apita. Gritam-lhe de todos os lados:

   E' o Max das fitas!...

*

**

   Este volta a pé para o theatro Republica, onde, no camarim, o seu regisseur lhe faz uma fricção de agua de Colonia. Está encharcado. Resente-se da queda de Hespanha e não está muito bem disposto. No em tanto, na sua alegria habitual, conversa sempre e dispõe a ensaiar com Melle Napierkowska.

   Manifesta-me uma duvida:

   ― Deus queira que o publico amanhã não venha disposto a vêr-me representar uma peça. E' um intermedio de music-hall, um sketch, segundo a nomenclatura moderna.

   «Sketch - a palavra o diz: esboço. O texto não é fixo. Os artistas dizem o que lhes apetece. Só o que é quasi marcado é a acção, a movimentação das figuras que é cinematographica com todos os exaggeros proprios. Assim, amanhã, vou introduzir em sketch um final que me parece bom. Quando para o anno eu voltar a Hespanha e Portugal trarei commigo uma troupe e representarei então comedia e os papeis que eu tenho feito com successo; o galã da Miquette, e o policia do Roi, o creado de Petit café, etc. E, como o publico quer vêr em mim Max das fitas, isto é, tal qual sou, farei tambem sketchs no genero d'aquelle que vou fazer amanhã e do que farei na minha despedida.

   Max torna a falar-me enthusiasticamente das suas impressões colhidas na volta que hontem demos juntos na cidade e declara-se sobretudo encantado com a travessia da Mouraria, onde - ó popularidade! - o sympathico rapaz teve o prazer de ser reconhecido e saudado por algumas das frequentadoras do bairro.

   Encontrei em Lisboa o que não encontrei em Madrid o em Barcelona; cousas typicas e curiosas. Depois a côr de toda esta cidade comparada ao tom cinzento de Paris!... E' um encanto e estou satisfeitissimo. Ça marche demain, ce sera la rue Michel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Capital, 20.10.1912:

English

 

 

THEATROS

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Primeiras representações

THEATRO REPUBLICA. ―

Representações de Max Lind―

er e Napiers Kowska.             

 

 

   A critica dramatica nada tem que ver com Max Linder, pelo menos sob o aspecto em que o vimos hontem. Os seus diplomas dizem-nos que elle é primeiro premio do Conservatorio de Paris, as chronicas estrangeiras apontam-no como tendo representado com grande successo em varios grandes theatros da França. Ignoramos, porém, quaes sejam os seus méritos dentro das convenções da arte de representar. Hontem tinhamos a apreciar o artista cinematographico e esse já o conhecíamos em imagem. As suas qualidades n'esse genero discutíveis ou indiscutíveis, a'alto relevo artistico ou de baixa acobracia—como quizerem—fizeram-no celebre em todo o mundo onde se exhibem films Pathé e fazem-lhe ganhar trezentos e cincoenta mil francos em Paris, o que é—parece-nos—uma cousa posititiva.

   Hontem Max Linder mostrou-nos como se faz um film comico com as aventuras d'um pedicuro. Simplesmente substituiu as legendas que estamos habituados a ver escriptas na tela branca por um texto, sem importancia nenhuma — como elle muito bem disse na sua entrada graciosa—mas onde ha todavia meia duzia de calembourgs que, não sendo a ultima palavra no genero, fizeram rir os que os entenderam. As palavras eram desnecessarias. A explicação estava nas peripecias da acção e na expressão physionomica dos artistas habituados a trabalhar para a photographia e portanto bons mímicos.

   Max Linder foi optimo de visagens e attitudes, dentro da sua elegancia tradicional, e introduziu no texto francez dois ditos portuguezes que divertiram immenso a platéa. O seu trabalho durou um quarto de hora, o que foi sufficiente para o deixar extenuado, tendo sido ovacionado calorosamente na entrada e no final.

   N'um outro numero do programma, Mademoiselle Napiers Kowska, a celebre bailarina da Grande Opera de Paris, executou dentro de um quadro pobríssimo uma dança grega, deliciosa serie de reconstituições plásticas, que durante cinco minutos non encheram os olhos de uma visão admiravel de belleza. O nosso publico não pareceu interessar-se. Consta, que Napiers Kowsha, que teve que bisar, dentro do sketch, a Dança do urso com Max Linder tenciona dançar uma d'estas noites o maxixe com o seu endiabrado camarada. Deus o queira, para que a celebre artista, que parte no mez de janeiro para aquella pocilga do Metropolitan-Opera de Nova-York como primeira figura do corpo de baile, não vã de Lisboa mal impressionada com o nosso critério esthetico. O resto do programma, composto de fitas, aliás esplendidas, não contentou a ancia do publico, que desejaria ver Max Linder durante tres horas. A.B.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Zé, 22.10.1912:

English

 

 

A IMPRENSA... NO CINEMA

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Max Linder

   O homem do dia. Max Linder nasceu em Saint Loubes, Geronde, França,contando actualmente 29 annos.

   Poucos têm conseguido, na sua carreira artistica, os exitos de Max Linder, sem uma sombra da sua fortuna, pois se crê que possue aproximadamente um milhão de francos.

   Seus paes, pretendendo retirar Max da carreira artística, nunca imaginaram até onde poderia chegar o seu Max. Hoje vivem em Saint Loubes, sendo dos princípaes proprietarios da povoação franceza.

   Max foi enviado a Bordeaux para preparar-se na carreira de medico, ou de advogado. Mas ali, elle prefere o estudo de comedias e dramas ao convívio dos livros de estudo, trocando, passado pouco tempo, a escola... pelo conservatorio. E ou regressar a casa nas ferias, apresentou aos anos velhos, em vez das cartas de exame... a bota do primeiro premio do Conservatorio. Pode dizer-se que foi esta a sua primeira partida.

   O primeiro premio de declamação, ganho logo no primeiro anno, demonstrou claramente que Max era uma eminencia... na carreira dramatica. E emquanto no lar estala o conflicto, elle é escripturado por 150 francos mensaes no Theatro das Artes (hoje Apolo), em Bordeux.

   Ali trabalha durante um anno e passa depois a Paris, apresentando-se no conservatorio, cujo, professor Mr. Leboir, lhe aconselha não entre no conservatorio pois Max está considerado... um mestre, na declamação.

   Desenganados, os paes de Max dão finalmente o seu consentimento, com a condição, porem, de ser escripturado na Comedia Francesa.

   E' apresentado a Mr. Le Bargy. Este aceita o novo artista e faz com elle um contracto original.

   Max receberia lições de Le Bargy em troca de lições de esgrima recebidas de Max.

   Le Bargy tornou-se em pouco tempo um bello esgrimista e Max recebeu lições que lhe foram bem proveitosas. Seis mezes depois deixa a Comedia e passa para o Ambigu, onde tem um grande numero de creações, comicas e dramaticas, obtendo na peça militar, A grande família, um estrondoso triumpho.

 

   Regane, admirada com a diversidade que Max apresenta em todos o generos, oferece-lhe um bello contracto por tres annos. Uma vez assignado o contracto, surge Mr. Samuel, convidando o para o Varietés.

   Max hesita, resiste em romper um contracto firmado com Regane; mas Samuel tudo consegue e leva Max comsigo, devendo o rescindir aquelle contracto á amigavel intervenção de Sardou. A vida de Max no Varietés foi um pequeno calvario. Todos se opõem para que Max suba. Os companheiros conjuram-se, e Max está quasi vencido, pois não pode rescindir um contracto feito com demasiada leviandade. Sáe por fim do Varietés, e a sua carreira continua em varios Musich Halls.

   Aos 17 sofre varias operações cirurgicas. Vive 6 mezes na Suissa, a restabelecer se, e tres mezes na Italia.

   E' convidado a fazer uma fita cinematografica. E a primeira em que Max nos aparece é A saida do colegial! A seguir a estreia do patinador, recebendo... 40 francos. O pequeno ganho elevou-se a um milhão de francos e a um nome universal.

   A interpretação de varias personagens muita vez o colocou em perigo de vida. Uma vez em Chamonnia, outra em Paris representando «Max Jockey».

   Max é solteiro, e, segundo dizem, o seu ideal é a mulher loira delgada e graciosa.

   Eis senhoras e senhores quem é Max Linder. O Rei do cínematografo que tem os seus domínios em plena Republica!

   A sua vinda a Lisboa foi, pode dizer-se, um caso extraordinario, pois nunca artista dos muitos que nos teem visitado, recebeu tamanha manifestação como aquella a que assisti no passado dia 16.

   Max foi o homem do dia.

   A vida é isto. Um povo correu a aplaudir aquelle que muita vez lhe tem proporcionado momentos de franca alegria onde afoga as suas maguas.

   Seja Max vem vindo e que leve de nós as melhores recordações.

Vinicio