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Theatros e diversões

MAX LINDER

 

   O nosso serviço telegraphico publicado hoje nos dá a tristíssima nova de haver fallecido, n'essa cousa bárbara e irracional, que se chama a guerra, e que está reduzindo a humanidade ao nível dos brutos — o notavel actor cinematographico Max Linder, que tão rapidamente illustrou o seu nome e contribuiu para a grande fortuna da casa Pathé Frères.

   E' muito rare que uma individualidade artística, qualquer que seja o seu ramo preferido, espalhe tão depressa a fama do seu nome pelos quatro cantos da terra, semeando, constantemente, o riso, a alegria mais franca e communicativa, e transforme a sua imagem fugidia n'um verdadeiro symbolo de existencia feliz e tranquillamente gosada.

   Max Linder foi um d'esses eleitos raros.

   O seu nome evocava logo a visão de um mundo illuminado, tumultuante, sem lugar para a tristesa e para a sombra; e o annuncio dos films, que elle mesmo compunha e executava, era garantia segura de successo.

   Insinuante, sympathico, conhecedor a fundo do metier, vestindo igualmente bem quando fazia os gentlemen e quando fazia o apache, agil, inventivo, de uma mímica eminentemente expressiva, Max Linder era o encanto do publico dos cinematographos, especialmente, do bello sexo e da creançada.

   O feitio dos seus chapéos, dos seus fraks, das suas calças, a maneira de dar o nó ás gravatas foram copiados pela moda, e vulgarisaram-se, creandò logo imitadores.

   Veio à guerra, e Max Linder, deixando o mundo da ficção pela durissima realidade, lá foi para os campos de batalha cumprir o seu dever de patriota, encontrando, afinal, a morte.

   Elle, que tantas vezes morreu diante da objectiva dos photographos, espectado nas pontas dos touros, enforcado, asphyxiado nas aguas do Senna, sempre para fazer rir, deu agora o ultimo e verdadeiro arranco a valer, cedendo ao embate da onda rubra exterminadora, que vae avassalando o velho continente e derrubando tudo na mesma furia de destruição.

   A' sonoridade do riso succede o dobre a finados, e aos applausos de todos os publicos, que o conheciam e lhe eram gratos pelo bem que elle lhes fazia, succedem as tetricas honras fúnebres anonymas, prestadas diante de uma cóva aberta ás pressas, de que amanhã se não saberá mais ao certo o lugar!

   Ha tempos os jornaes reproduziram noticias de uma folha do Pará dizendo que Max Linder era filho daquelle Estado, e que, tendo ido muito creança para a França, por lá se creára e fizera gente, adotando, afinal, aquella nação como sua pátria.

   Essas noticias nunca foram confirmadas e, provavelmente, não passarão de fantasia.

   Mas francez ou brazileiro, Max Linder tinha por patria o mundo, porque com a sua arte original, fecunda e tonificante, o conquistou todo, e n'elle creou um nome de recordações imperecíveis. (A Federação, 3.10.1914)