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Vi-o em carne e osso.

 

Vi-o com a cartola no alto da cabeça, o infallivel frack preto e a calça de riscos, tal qual todo o Rio o conhece nas fitas do Pathé.

   Não advinharam quem era? Não? O Max Linder.

   Elle, em carne e osso, mais em osso do que em carne.

   Eu entrava n'uma barbearia do boulevard Montmartre e elle sahia. Esbarramo-nos ligeiramente. Houve uma troca de pardon, monsieur.

   Notei que o famoso rei do Riso, como o chamam nos cartazes, tinha um ar carrancudo, uma cara de poucos amigos.

   Virei-me para vel-o descer a escada, suppondo ingenuamente que elle ia dar aquelles saltinhos que tanto divertem os espectadores de cinemas. Desceu pausadamente, quasi que gravemente, como alguém que vai cogitando de cousas serias.

   Contando mais tarde o meu encontro a um parisiense das minhas relações, rapaz meio jornalista, meio homme d'affaires, este me declarou que o rei do Riso não é nada alegre na intimidade e (será verdade?) tem um ciume terrível das mulheres bonitas que trabalham com elle nos films do Pathé.

   Bem entendido; ciume da attenção que a mulher bonita possa merecer dos frequentadores de cinemas.

   Alegre ou não, invejoso ou não, o caso é que o Max Linder, com as suas gatimonhas ganha um dinheirão e d'aqui a alguns annos poderá descançar das formidáveis cabriolas e piruetas que lhe valeram a sua universal reputação. Alex. (Fon-Fon, 25.7.1914)