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A SEMANA

 

   O mesmo telegramma que annuncia a morte em combate do comico Max Linder põe em duvida a veracidade da nova. Entretanto, por muitos motivos, eu não estou disposto a esperar a confirmação ou a contestação do boato para, sómente depois, verificada a primeira hypothese, escrever duas linhas sobre o caso. Escrevo-as desde já, acreditando no facto, primeiro porque elle é natural, segundo porque é bello e, finalmente, porque são, em geral, verdadeiras as más noticias.

   Como todos os francezes validos, Max Linder, esse idolo dos amigos do cinematographo, partiu para a guerra, a dar o seu contingente de esforço individual em defesa da patria ameaçada. Partiu, talvez com aquelle sorriso voluntariamente tolo, que milhares e milhares de projecções divulgavam e que os films terão perpetuado; marchou á vos de fogo para o seu posto e ahi, attingido por uma bala prussiana, encontrou morte honrosa.

   E' simples e é 'bonito. Vou ainda mais longe, achando que esse fim trágico foi a melhor solução para a vida arriscadíssima desse actor, que tinha assumido a obrigação formidavel de fazer rir o mundo inteiro.

   Deve-se attribuir a Max Linder a creação (entre parenthesis, funesta) da moderna farça cinematographica. Foi elle que inventou a pachuchada muda na tela, composta de esgares, de tregeitos, de attitudes inverosimeis, tudo isso se succedendo em phases rapidas, celeres, que iam aos ultimos limites do absurdo supremo.

   No escuro, os salões repletos reboavam de gargalhadas felizes. Pouca gente deixava de achar graça, e eu era sempre desse numero de descontentes.

   As mais estupidas anecdotas eram engendradas por cerebros já fatigados de tanta baboseira, unicamente na intenção de ser ainda uma vez explorada o bom humor ingenuo e superficial, do farcista.

   Max Linder, que tinha a certeza de sua popularidade, a tudo se prestava, multiplicava, as suas caretas, esbugalhava ainda mais os olhos, mais ainda caricaturava a sua elegancia, senhor do triumpho em face do publico de todo o mundo, sobre o qual discricionariamente imperava.

   Supponho que elle não tinha mais de trinta annos. Se fôra normal a sua existencia, até os quarenta poderia perseverar na mesma nota de galan comico, pantomimando as mais grotestas aventuras de amor, que todas as salas achavam engraçadas.

   Depois, ou mudaria de genero, o que redundaria numa experiencia fallivel, por maior que fosse a sua habilidade, ou persistiria no mesmo, expondo-se, por essa fórma, a um triste desastre.

   O celebre artista cinematographico parecia haver chegado ao apogeu de sua carreira. No zenith foi a morte surprehendel-o. Não figurarão mais novas farças nos programmas de espectaculos, mas a sua immensa collecção de fitas será repassada no écran, emquanto houver adeptos do, soporifero divertimento.

   O fim heroico de Max excitará a admiração de seus fieis clientes. Sobre os que já existiam surge agora um attractivo novo, porque a figura risonha da tela, com a cartola de oito reflexos, o fraque modelar, a calça admiravelmente talhada, a perola da gravata, as luvas, o lenço de cambraia, já não é mais que a sombia de um desapparecido.

   O namorado fashionable e ridículo, que agita a sala inteira num fremito de riso convulsivo, é ainda Max Linder, o rei do cinematographo, mas já é a evocação de um morto.

   Esse homem alegre, que ora treme as pernas na externação de um medo fingido, cae do alto de um armario sobre mil fragmentos de cristaes partidos, fica sob um automovel de papelão e ora vai á mairie com uma velha, que é sua noiva, mergulha involuntariamente no Sena com toda a sua peregrina elegancia, ou põe abaixo todo um castello para fugir á perseguição de um sogro exaltado, esse homem, que é todo galhofa, todo farça e todo riso no panno branco, sobre o qual incide o feixe luminoso do apparelho projector, já estancou em si as fontes das gargalhadas, em que todos vos torceis, ó frequentadores de todos os cinemas da terra...

   À vida é o inesperado. Quem podia imaginar essa contradição sem igual? O rei do riso interromper para sempre a serie das suas creações burlescas, longe do seu ambiente, na trincheira, varado por uma bala assassina...

   Esses que tanto o admiraram e tanto lhe devem em boas disposições de espirito talvez não consigam unir os dois Max na sua imaginação. De facto, é difficil o exercicio. Como é possível identificar o blagueur ao heróe?

   Irei eu, que me não posso gabar de ter sido um dos seus idolatras, tentar o exercicio. Procurarei, emquanto correr a fita, dar a Max Linder as qualidades marciaes de que elle se deverá ter revestido.

   Perdoar-lhe-hei, então, os excessos de burla grosseira...

   Mas, ainda mesmo sem o ter visto, com o seu bel lo fim de patriota, de uma coisa posso desde já me convencer. O popularissimo comico não devia achar graça nas suas creaçoes. Sabia, entretanto, que a ellas devia a sua fortuna, a sua celebridade. Os seus innumeros films lhe asseguravam a posse da admiração dos vindouros.

   No momento do combate, talvez o unico movimento serio da sua vida, Max, se ainda o ferimento lhe deu tempo de pensar, deverá ter lastimado a ausencia de um apparelho registrador, menos por vaidade que pelo ensejo de destruir com esse film supremo, o ultimo para que "posava", o da morte, os films tolos em que dissipara a sua mocidade.

   Essa ultima creação não divertiria as platéas... Mas, nem por isso deixaria de representar um ensinamento soberbo e uma rehabilitação. Oscar Lopes. (O Paiz, 4.10.1914)