DERRADEIRA PANTOMIMA

DE MAX LINDER

 

   Não é para carpir o suicidio de Max Linder que delle vou occupar-me. Por mais que o tentasse, não conseguiria — estou certo — meia lágrima sequer, á evocação de quem tanto me fez rir. E a culpa não é minha, posso garantil-o, muito embora me não affoito a asseverar que delle seja tão convicto estou de que a ninguem é dado escolher o proprio destino — rir eu chorar, fazer chorar ou fazer rir …

   Muito menos pretendo discretear sobre essa renuncia ao dom pretensamente precioso, sempre, da vida, censurando-a, condenmando-a.

   Quizesse mesmo fazel-o, por um capricho extravagante, recorrendo, sob o suave despotismo da lei do menor esforço, aos clichés gastissimos forjados para a circunstancia por uma philosophança de vintem, e não proseguiria.

   E' que, para condenmar agora esse gesto, eu teria de ir de encontro á velhíssima opinião de um escripter deploravelmente mediocre — não o contesto — mas com quem tenho vivido em tão excessiva intimidade, com quem, certamente por não dispor de camaradagem menos obscura, estou de tal maneira identificado, que discordar delle, em casos como esse, tão hospitaleiras para todas as doutrinas, sem excepção das mais abstrusas, revestir ia aos meus olhos o caracter hediondo de uma deslealdade, de uma traição.

   Ora, esse meu constante, quasi forçado e inevitavel parceiro na meditação, tendo de escrever sobre o drama "Berenice", de Roberto Gomes, justificou o acto que permittiu a este evadir-se, por fim, áquella inexprimivel tortura de "habitar, com a alma appolinea, um desmantelado corpo de fantoche", nas seguintes palavras:

   "Se se reconhece, com repugnancia cada vez menor, se quasi se proclama o direito de matar, por que essa obstinação bronca em negar o direito de morrer? Se matar é muitas vezes uma acção nobilíssima, de que se afasta como sacrilegio a derimente do desvairo, um imperativo luminoso que a vontade jubilosamente aceitou, acto fé, acto de religião, porque morrer voluntariamente—a unica fórma verdadeiramente nobre de morrer — ha de ser, em todos os casos, uma covardia, uma vilania, uma torpeza? Dar-se-ha que a moral corrente, corrompida por tantos seculos de civilização, tenha por mais liquido, mais razoavel, mais justo, dispor alguem da alheia, que da propria vida?"

   Não, não será, decididamente, para invectivar a sombra desse imprevisto, illogice, paradoxal suicida, que me aproximarei della.

   Permaneço intransigentemente fiel is theorias, apparentemente monstruosas e crudelissimas, mas, na realidade, cheias de uma alta, transcendente commiseração para certas modalidades de desventura, que tem na morte seu unico remedio, e, no entanto, são prolongadas indefinidamente, com requintes de sinistra ironia, por uma vitalidade tenaz, vitalidade — algoz, vitalidade — carrasco.

   E' pueril a doutrina que pretende ver em todo suicida um louco, um allucinado. Mentira. Casos existem e não dos mais raros, em que symptoma claro, positivo, conerto, insophismavel, de allucinação de loucura, será o empenho, o propósito, a obsessão de continuarem certas vidas a viver.

   Mas são de outra ordem as reflexões, ou pensamentos que desabrocharam em mim, ao saber que Max Linder se matara.

   Não é indispensável que se aguardem minúcias do facto. Todas as circumstancias em que este occorreu, a historia progressa do suicida, o pormenor de ser acompanhado pela esposa na execução do sombrio designio, tudo, em summa, nos segreda que essa morte é consequencia natural de um scepticismo systematico.

   Scepticismo, sim, por mais estranho que pareça. E logo uma irreverente exclamação nos escapa: Onde se havia de aninhar o sceptícismo! Na alma de um homem, cuja profissão era rir e fazer rir, e dentro dessa profissão alcançou a victoria integral: fortuna, gloria, o ineffavel orgulho de ser disputado pelas mulheres. O triumpho múltiplo e omnímodo.

   Será o primeiro caso dessa natureza que se registra? Absolutamente não. Ao contrario. O que se tem observado constantemente é que os profissionaes do riso, aquelles cujo officio é alegrar artificialmente os outros, espanar e vasculhar os corações alheios, para que lhes não fique um atomo, sequer, desta poeira terrivelmente penetrante — a melancolia — são criaturas profundamente, visceralmente, incuravelmente tristes.

   O exemplo de Molière é formidável, sua referencia é clássica. O homem cuja graça por ahi anda até hoje, com todo o viço, toda a frescura e exuberancia primitivas, graça inexcedivel, em que se desalteram, saciam a séde de alegria, gerações e gerações successivas, viveu uma das mais, negras tragedias de que ha memoria em todo o universo.

   Maurice Donnay, antes de ostentar gravemente a casaca verde da Academia —- a libré dos immortaes —, foi chansonier, diabolico de verve, nos cabarets de Montmartre, e é o fermento da ironia por elle absorvido no ambiente da collina espiritual, que ainda hoje faz ferver, crepitar, espumar, o seu theatro delicioso. Quando, porém, tomou conhecimento do que tinha sido, em verdade, a existencia do poeta-saltimbanco, fundador da literatura theatral franceza para poder organizar o curso levado a effeito na Scieta das ferencias, por volta de 1911, não conseguiu dissimular sua enfoção em face de tão fundamental tristeza, e, ironista que traçava o perfil de outro ironista, acabou encontrando motivos de elegia onde acreditara que só existissem themas para epigramma.

   Não é diverso o caso de Debureau nem menos classico — Gaspard Debureau, pantomineiro insigne, cuja figura era, não ha muito, evocada por um dos seus filhos espirituaes, Felix Galipaux, o Galipaux Galipi das farças irresistíveis, que hoje digere pensativamente, todo voltado, em espirito, para um passado de esturdio e cabotinismo phrenetico, a pensão de antigo societário da Comédie.

   A arte de fazer rir, nesse clown, chegou a ser uma therapeutica de resultados garantidos no tratamento da hypocondría. Certo dia, porém, um dos clínicos que já então adivinhavam os milagres da psychotherapia, o methodo do professor Dubois e outros, aconselhou um consulente que se queixava de irremediavel depressão moral a ir ver Debureau no seu esfusiante, hilariante repertorio. Replicou o pobre diabo que lhe era impossivel seguir aquella prescripçáo.

   — Por que? — repontou o medico.

   — Porque sou o próprio Debureau, explicou o desgraçado, no auge da desolação e do desespero.

   E, para que se accentue o caracter perturbadoramente paradoxal dessa lei psychologica, dessa inconcebível, irrisoria, inverosímil verdade do sentimento humano, intervem ainda a replica, a reciproca do phenomeno: os antípodas dos palhaços, os comediantes que cultivam a tragedia, são, por via de regra, sujeitos bonanchões, de humor sempre alegre e communícativo, gostando de pregar peças aos amigos, e procurando em tudo um pretexto para dar expansão á sua alegria de viver.

   Como se explicarão essas desconcertantes anomalias? Ignoro. Mas não é impossivel que assim as expliquem os homens de sciencia, pretensos violadores de todos os mysterios: E' sempre o mesmo, limitadíssimo e insusceptível de ser acerescido, o quinhão de alegria a que tem direito cada sér.

   Não ha, portanto, duplical-o, desdobral-o. Ou o deixamos em nossa vida, ou o transferimos para a nossa arte. E desse dilemma, dessa contingencia de escolher, a variedade dos destinos: guardam uns egoisticamente a sua reserva, offerecem outros a sua, altruisticamente, aos demais, seus semelhantes, seus proximos.

   Foi seguramente á segunda categoria que pertenceu Max Linder. Quanto maior a alegria que tinha a faculdade de fazer germinar, em torno de si, tanto maior a sua desolação intima, secreta, iususpeitavel. Era um terrível pessimista que sómente agora se revelou. E pessimista dos bons, dos que o são a valer, conforme uma doutrina dilecta de George Sand — aquelles que logicamente repudiam a vida, por lhe acharem o gosto excessivamente amargo.

   Historia inexcedivelmente dolorosa a desse histrião que certamente aspirou sempre, no segredo da alma contraditoria, a ser um animador de tragedias.

   Escravizado, porém, que estava, aos consumidores, aos freguezes de seus esgares, de suas contorsões, de suas piruetas, definitiva e irremissivelmente degradado pelo proprio officio, teria parecido ainda mais ridículo, hilariante, irresistível, no dia em que pretendesse enternecer, commover, alarmar a clientela.

   Ao seu alcance um drama, unicamente: esse que elle acaba de representar perante a humanidade perplexa, altonita. Era aquella a unica passagem por onde podia evadir-se da farça. Forçou-a, e, para se iniciar na tragedia, iniciou-se na morte.

   Não se me afigura, afinal, dos mais crueis o seu destino. Peor será o de quem, tendo passado a vida a despertar emoções austeras, morra de morte grotesca, de colicas por exemplo, ouvindo, ao envés de responsos, risotas da humanidade zombeteira.

   Diabo é se as Parcas lhe facilitaram a deserção deste mundo com o secreto designio de, no outro, improvisando-se emprezarias, lhe explorarem as caretas e deslocações de fantoche... BENJAMIN LIMA. (O Paiz, 5.11.1925)