OS SETE DIAS DE UM SIMPLES

(Quarta - feira)

 

   Afinal si o mundo todo nada mais é que um vasto panno de cinema, é preciso convir que nós não passamos do Max Linder! Vé tu isto Max Linder; nós, os homens, nós, os que servimos de modelo para o simio nos copiar os gestos e as attitudes e o papagaio nos imitar a voz! Sua os pensantes (homo sapiens!)

   E' triste palavra. E' pouco para homens!

   E' ridiculo para o rei das cousas creadas! Rei! Eu digo rei, como quem diz escravo, porque Max Linder, o supremo comico, si se agita açoitado pela luz dos apparelhos do cinema. Max Linder é um escravo do foco electrico. Está sob a acção de um raio de luz. Quando este o pica, Max pula. Pula e faz rir. Demais, o seu oficio e este.

   Tu que ahi estás, eu que aqui estou, nós ambos, meu velho, esperamos Max... E somos também Max.

   E o mundo todo é um cinema. Ha a fita comica, quando Max Linder está satisfeito. Max, chorando, produz o drama, o film colorido tristemente de roxo.

   E o apparelho? Sim. E' natural que tu queiras saber do foco que nos move, a nós, uma infinidade de Max caiados, estonteantes, afflictos.

   As paixoes, o instincto, ahi tens. Linder e um escravo do instincto. Pode ser magarefe ou toureiro, padre ou eleitor.

   Tu, per exemplo, és Max com o instincto perigosissimo da fraude. Podias ter nascido santo. E's bandido. A paixão eleitoral te atormenta. Sentes lhe a cocega, não resistes. E para ahi ficas transformado em galopim.

   Si o teu candidato vencer, serás Max comico. Dançaras, com as abas da rabona atendo pândegamente os calcanhares.

   Entretanto, podes ser tragico. Basta que sejas derrotado nas urnas. E' uma cousa fatal.

   Tu não obedeces a outra força, senão a sua natureza, o teu instincto. Si tens come mordes um naco de pão. Si és derrotado, quebras a cabeça do adversario. Ha uma época no anno em que te transformas. Chegas mesmo a negar o preceito evangelico do dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede...

   Ah! isto sim! Isto tu és capaz do negar ao teu amigo, ao teu irmão que te surrupiar um voto!

   E não és mau. E's mesmo a perola dos homens. Vais á missa, amas a Patria, espeitas o poder constituído. O diabo é mexerem no teu partido. Em politica és domavel. Ao proprio papa, a um papa politico e adversario tu és capaz de estragar a tiára, coroando o desastre com uma phrase secca: "não se mettesse comigo!"

   Quando o teu candidato é fraco tu lhe injectas nas veias o heroismo de affirmar, triumphas, Max Linder, começando por te pudires a ti proprio. E' a auto-illusão. Tu e curvas e atiras um punhado de areia es proprios olhes.

   Si o teu rival é um genio e está sobre um altar, tu lhe quebras a peanha e o mergulhas no lodo.

   Fóra, a multidão de Max Linder applaude o gesto infernal, Max Linder, que estás em scena. Na cabine, o operador, ue é o instincto, redobra a força que te impulsiona.

   E tu saltas como um capro; resvalas, sabes, desces, despropositas como um louco.

   Passas pela honradez adversaria e lhe aos um safanão aos cabellos. Assobias ás estas de Juizo. Cospes o tripudias sobre o cadaver da honestidade. E' o teu feroz infineto de Max Linder da fraude.

   Mais ás urnas e as transformas num képi, ou sua cano de botas. Trocas o miolo ás celullas, ameaças os teus dependentes de vinganças frias e crueis.

   Depois, cançado, respiras. Ha um rumor approvação na platéa. O operador refreía a pouco a força com que te fez dançar.

   Súbito, numa volta de estrada, á sombra de uma arvore, avistas uma mulher que chora. Pensas que é uma das tuas amantes. Não! Não é! E' a Patria. E chora. Mas tu ris, Max Linder. Ris e danças. Ora, Patria! A Patria, afinal, é isto. E dás, seu vergonha, um piparote no estomago. E continuas a dançar. Ha palmas na assembléa. E triumphas. E' soberbo!

   Si alli apparecesse um teu adversario, tu dele beberias o sangue, como um vampiro. Grazias bem, não é? porque a vida é uma poeta. Quando não puderes derrubar um amigo, corta-lhe sem cerimonia a reputação a golpes de língua.

   Faze do seu passado uma nodoa, do seu presente duas nodoas, do seu futuro tres nódoas. Não ha uma cousa peior que um homem vencido: - é um vencido que se cala! E o mais são historias para commover corações virgens, contos em que o homem apparece, de azas, subindo, barbado, para o seu. Tolices!

   E tolices são estas ascenções ao empyreo no meio de uma nuvem de incenso. Qual nada! Si o cordeiro fosse bravo, não seria a victima do lobo!

   Si ha a morte do cabrito, berrando e se vingando nas oiças do algoz, e a morte do carneiro, sem um arranco, com lágrymas nos olhos, bolas! faça o homem como o cabrito! E a historia, muito simples, é esta. Só esta. Ahi tens, Max Linder!

   Tu, essencialmente politico, profundamente fraudulento, não comprehendes o amor, não comprehendes a gloria do saber, não comprehendes como um homem pode. a todas as causas da vida, preferir a aureola da bondade, que santifica uma existencia inteira, abençoando, depois da morte, a memoria! E' porque, Max Linder, da tua própria vida tu andas a fazer um jogo, a ver se o diabo te fica com a alma a troco de um voto para qualquer cousa.

   E assim somos todos nós. O mundo é um vasto panno de cinema. Os homens são um ajuntamento de Max Linder, ora cómicos, ora trágicos, impulsionados por todas as paixões, em cabriolas e arrancos pela vinda...

   Tu, meu velho, tens o vicio politico. Insultas a bondade, desrespeitas o genio, fumas, de uma cachimbada, todo o passado honesto de um adversario.

   Si não matas, é porque tens medo da cadeia, da autoridade, do jury...

   Outro terá o amor por lemma. Fará tudo a bem de uns olhos amados. Por um laço de fita, que já tenha atado umas certas madeixas, elle se atirará, de pernas ao ar, no mais profundo e escuro dos abysmos.

   Outro terá a loucura do saber; descerá no fundo de um poco o procura de um livro, ainda mesmo que lá em baixo á espere o martyrio, contanto que antes de morrer se delicie com a leitura do volume desejado.

   Outro será numismatico. Dará um litro de sangue das proprias veias por uma moeda com a ephigie de Napoleão...

   Outro quererá ser santo...Outro... Em fim, o mundo é o vasto panno de um cinema.

   E o symbolo é perfeito, bem o vês...

Mario Lotus

(O Pharol, 16.2.1910)