- O triste fim de Max Linder -

 

- por OSWALDO ORICO -

 

   A morte de Max Linder veiu apenas confirmar, no seu ruidoso e estonteante contraste, a sorte precaria dos humoristas.

   A alegria da mascara que faz rir é quasi sempre a antecipação do rictus com que a mascara terá de modificar a espectativa dos que se divertem. Auguste, o "clown" que Paris adorou com o mais intenso dos enthusiasmos, Tamborim, Little Fitch, Debureau, Mark Twain, a galeria ineffavel que abre todas as boccas em risos gostosos, toda ella caminha sempre para esse fim triste, para a surpreza desconcertante de um epilogo imprevisto. Parece estar nas proprias finalidades do humorista e do palhaço a antinomia entre o começo e o fim. A accidentada historia desses homens nos ensina através dos mais curiosos episodios a admirar o heroismo e o sacrificio com que elles celebram a vida que têm de viver. A obstinação, a paciencia, o esforço continuado e consecutivo para crear a alegria alheia, para semear enthusiasmos e risos dá-lhes, incontestavelmente, apparencia de genialidade. Porque é preciso possuir, sem duvida, requisitos subtis, intelligencia ductil, visão das fraquezas collectivas, apprehender o segredo das muitas almas que desejam rir, para atirar-se o homem a essa desventurada e quasi sempre implacavel funcçao da alegria. Nada cansa e nada esgota mais. A mais ardua tarefa é aquella que aos nossos olhos se affigura a mais facil - distribuir o riso. Ao homem que se julgue capaz de fazel-o, que tiver a obrigação de fazel-o está reservada, naturalmente, a condição daquelle que dissipa os proprios bens. Sim. Parecem effectivamente solidarias, unidas as existencias de millionarios e palhaços. Ambos podem distribuir alegria. Ambos podem mudar as faces tristes, descongestionar as physionomias. Ao fim de excessivas dadivas, porém, ao cabo de tanta prodigalidade, o esforço de crear a desvairada paixão dos outros estiola-lhes todos os bens, cresta-lhes todos os thesouros. Imaginae, por exemplo, uma roseira obrigada a fornecer, diariamente, o prodigio de sua graça floral, seja ou não primavera, adubem-lhe o terreno em que viceja ou o condemnem ao abandono, caiam-lhe sobre as folhas as fecundas lagrimas do orvalho ou a convulsionem os remoinhos do vento. Imaginae essa roseira, obrigada a desfazer-se em rosas para a vaidade e alegria dos outros! ... Compromisso doloroso, esse, que nivela o espirito mais irradiante ás funcções mais infimas e utilitarias. A questão essencial na vida amarga desses homens é a de provocar, no homem que paga, o riso, a gargalhada franca. Esteja ou não em condições de fazel-o, é mister que justifique a todas as horas o seu destino, semeando a hilaridade, engendrando na mascara movel as expressões que mais fallem á attenção e ao divertimento das platéas. E se acaso uma dor, um accidente perturba a vis comica, e capciosamente se insinua na alma das celebridades do riso, que fazer deante da multidão que lançou a moeda á arena e espera desopilar-se gostosamente? Ahi é que o humorista faz lembrar, no seu torvo destino, as alimarias rebeldes, que necessitam do chicote para moverem o pesado carro a que se atrelaram. Chicote tambem para o espirito! Chicoteal-o valentemente, zurzil-o de lambadas nefandas, até que o extremo da dôr faça desabrochar a mofina ironia adormecida. E' sempre assim. Depois que os tormentos e as decepções annuviaram a tranquillidade sabia de Rabelais, o poeta escrevia

"Mieux est de ris que de larmes escrire,

Pour ce que rire est le propre de l'homme,

Vivez joyeux.”

   Esses jardineiros da alegria devem consideral-a, como Michelet. a quarta virtude divina. E' por isso, talvez, que a ella se dedicam heroicamente, que lhe dão todas as graças do seu fabulario pessoal, condescendendo em escancarar o riso no labio alheio, e fechal-o no seu proprio. Esses fundibularios e jograes modernos, que tão alto elevam o sacrifício intimo, povoando de clarividencias e de enthusiasmos a existencia dos outros, e semeando de tedio e neurasthenia a sua propria existencia, fazem recordar as scenas do reino de Lahore, em Delhi, onde se fabrica uma bebida mysteriosa, um licor finissimo, de sensações totaes, o licor que se chama, justamente, - Vinho da alegria. Segundo o testemunho dos viajantes curiosos que o provaram, e que para isso gastaram vultosas riquezas, trabalham na confecção desse vinho, durante mezes e annos, centenas de escravas virgens, escolhidas pela belleza, seleccionadas pela finura das mãos, pois que só mãos lyriaes podem tocar o infusorio dessa exquisita beberagem de tamaras e pessegos, e assistir a essa fabricação secretissima, que lhes custa, quasi sempre, a atrophia dos lindos dedos e o desvio das lindas almas. .. As garrafas que sáem para o commercio de millionarios custam exorbitantes quantias e, no rotulo quasi inattingivel, apresentam a receita e a chancella do rajá ou marajá fabricador. Aquelle que consegue obter uma botelha ou uma goticula desse purpuro amalgama de pimenta, baunilha, noz moscada, coralinas e pyropos parece ver a consciencia desabrochar em constantes sorrisos. Desconhece, entretanto, no momento veloz que lhe é offerecido, o preço real desse producto, que custou o sacrifício das formosuras que nelle puzeram as mãos.

   Max Linder foi, por muitos annos, uma especie de Biliken. Todos acreditavam nelle para os seus momentos de riso. A sua multipla physionomia, agitada, irradiante, era sempre um convite á gargalhada. Mais do que aquelle fetiche, a quem bastavam umas cocegas nos pés para espalhar prazeres, o hilariante actor descortinava a alegria nos labios, com a simples apparição de sua sorridente imagem. E ninguem desconfiaria, de certo, embalado pela musica unanime dos estrepitos e dos bons humores, que esse faiscar de regosijos escondia apenas a surpreza, agora revelada, de um fim ultraepico para uma vida ultracomica. Pena é, em tudo isso, que se não tivesse previsto a espantosa finalidade de Max Linder. Estou a apostar que as platéas, que tanto o amavam, haviam de applaudil-o loucacamente, extraordinariamente, se lhes fosse dado assistir ao ultimo dos seus actos, admirar-lhe a casquinada gostosa e contemplal-o na extrema careta, quando estivesse a desabrochar das veias cortadas o sangue bello de alegria, que elle distribuiu, amavelmente, divertindo a propria morte com rosetas vermelhas... OSWALDO ORICO. (Revista de semana, 5.12.1925)