O comico Max Linder

 

   Telegrammas de Paris annunciam o tragico suicídio de um dos comicos da scena muda mais conhecidos em todo o mundo.

   Max Linder, que não fez outra coisa na vida senão provocar barrigadas de riso, foi, até certos annos passados, o encanto da cinematographia. Com o seu emulo Prince, que tambem desappareceu da scena, foi um dos artistas mais queridos do publico, especialmente feminino.

   Elegantíssimo, Max Linder foi o lão da moda parisiense. Foi elle quem introduziu a moda das calças listadas, com o frack, que até agora é de uso nas pequenas ceremonias de salão.

   Contando pouco mais de trinta primaveras, «diseur» admirável, possuindo sempre uma infinita alegria, bastante rico, pois os seus films eram contratados a peso de ouro, Max Linder foi, especialmente, o homem querido das mulheres formosas.

   Era sem conta o numero de cartas que dellas elle recebia diariamente, pedindo-lhe a esmola de um seu autographo em um cartão postal.

   Uma vez que elle foi de passeio a Lisboa, a porta do hotel em que elle se hospedou se enchia de curiosos para vel-o passar radiante, triumphante, cheio de gloria e de felicidade. Faziam-lhe manifestações de apreço, disputavam-lhe a honra de um convite para os chás elegantes, para os saraus da fina flor, para as festas da elite.

   Jamais nenhum actor, nem Talma talvez, conseguiu mais popularidade nem mais ovações delirantes, do que o incomparavel comico, que acaba de desapparecer do scenario da vida.

   E não foi só em Lisboa. Em Madrid, em Sevilha, em Barcelona, era sempre o homem do dia. Nesta ultima cidade, teve de se disfarçar para não ser reconhecido e para o deixarem em paz, livre das maçadas das festas em sua honra.

   Foi este o homem que se matou, mostrando mais uma vez ao mundo que a felicidade ou é sempre muito relativa ou não existe, porque cada um a quer a seu modo.

   Gloria, fortuna, honrarias, tudo elle tinha e nada disso o fez consagrar á vida o apego que a ella tem a maioria dos homens.

   Se bem que Platão condemne o suicídio, dizendo que o suicida é um covarde, á similhança dum soldado que deserta de seu posto, e que seja esta a opinião da maioria dos pensadores, Seneca e os philosophos estóicos o exaltam como um acto de heroísmo.

   Rousseau condemna o suicídio, por tres motivos:

   I—Porque é uma violação do dever que ao homem é imposto.

   II—Porque é uma transgressão do nosso dever junto aos nosos semelhantes, porque, por mais miseravel que o homem seja, elle é sempre util aos outros.

   III—Porque é a violação duma obrigação que Deus impôz ao homem e que elle como que a despreza, abandonando o posto que esse Deus lhe impôz ao mundo.

   Entre os adeptos do espiritismo, os suicidas são considerados incapazes da bemaventurança e são castigados, voltando de novo á terra, passando pelos mesmos revezes e soffrimentos da vida anterior.

   Dante, no seu genial poema, colloca os que se matam no 7.° cyclo do inferno, soffrendo a condemnação de serem transformados em arvores, que crescem em um areal fervente.

   No tempo de Luiz XIV, o suicídio era considerado um crime e o cadaver dos que se matavam era devidamente processado e julgado.

   Se ficava provado que o suicida tinha desertado da vida, em virtude de seu estado de loucura, era absolvido; se ficava provado que o tinha por outro motivo qualquer, era condemnado. Amarravam então o cadaver em uma «charrette» e arrastavam-no pelas ruas da cidade, atirando-o depois a um monturo. Os bens do suicida eram confiscados e não podia testar.

   O criminalista Ferri vê no suicídio e no humicidio duas manifestações de um mesmo estado, dois effeitos de uma mesma causa, que se exprimiriam ora sob uma fórma, ora sob outra, sem poderem revestir as duas, simultaneamente. A mesma constituição psychologíca predispõe para o suicídio e para o homicídio: caracterizando-se por uma debilidade organica que os colloca em condições desfavoraveis para sustentar a luta. Homicida e suicida são ambos degenerados. O suicídio não é senão um homicídio transformado e attenuado.

   Camillo Castello Branco, tratando do assumpro, escreveu: «Invectivar de covardo suicida é escarrar na face de um morto. Quando confronto a minha cobardia com as tentações redemptoras do suicídio, então comprehendo a grandeza de animo dos que se matam».

   Mas não prosigamos nas considerações dos philosophos.

   Max Linder suicidou-se.

   Está de luto a comedia mundial. Hermeto Lima (Jornal do Brasil, 4.11.1925)